segunda-feira, 21 de março de 2016

A saudade é um sentimento daqueles esquisitos


Voltando de viagem  ao sair pela área de desembarque do aeroporto, vinha caminhando a passos tranquilos e sem pressa, quando fui vencido por um desejo de sentar-me naquele banco mais distante por alguns momentos,  e ali fui tomado por um grande vazio no peito. Sem dificuldade, tive a certeza de que havia sido vencido pela saudade, sem conseguir conter o marejar dos olhos e buscando uma forma de não me fazer notar.
A saudade é um sentimento daqueles esquisitos, porque fica imersa dentro do  coração e vêm à tona a todo momento para nos recordar que ela existe e está ali se fazendo lembrar.
E quando ascende à nossa mente, vêm sempre carregada dos mais diversos sentimentos, emoções, imagens, gestos e recordações, e tem o poder de nos fazer parar tudo o que estamos fazendo e arrancar um suspiro, um sorriso e às vezes até  uma lágrima.
Aí submerge novamente.
Por vezes, traz consigo apenas um sorriso com os olhos fechados, que quem vê logo percebe: "- ah, se lembrou de alguma coisa boa..."
O mais interessante é que mesmo guardada lá no canto mais profundo de nosso coração, ela permanece alerta, pronta para atacar novamente:
Passe os olhos em uma foto no smartphone de um lugar em que estiveram;
Cruze na rua com uma pessoa usando aquele mesmo perfume. Sinta o aroma daquele prato favorito trazido pela mesma brisa daquele parque onde sentaram juntos; ou abra a gaveta e encontre bem ali à frente aquele presente recebido. Não adianta fechá-la rapidamente, pois seus olhos vão se desviar para a estante, justamente naquele livro que você ganhou no primeiro encontro.
 Ardilosa!
E às vezes sorrateira, ela nos provoca, mandando músicas que nos fazem imediatamente lembrar-se da pessoa amada ou local em que estiveram juntos. Adianto que como numa provocação para a guerra, aquela música começa a surgir em comerciais de TV, como trilha sonora daquele filme antigo que a emissora resolve reapresentar na sessão da madrugada e no anúncio da rádio daquele curso que você nunca se interessou.
E lá vem de novo!  Aquele turbilhão de pensamentos que você precisa, deve disfarçar, conter-se, resistir à todo custo  mas... fecha os olhos e... sorri. (Não conseguiu segurar de novo).
Pacientemente, ela nos faz contar dia-a-dia o espaço de tempo para o reencontro onde finalmente ela será, enfim, derrotada.
Cada um à sua maneira, seja na mente, seja num quadro com a contagem regressiva riscada todo final de jornada, seja simplesmente olhando na agenda que vai se diminuindo o número de folhas até chegar o grande dia.
Felizmente a tal saudade, por sua própria provocação, acaba sendo derrotada através de um sem número de ligações, mensagens e reencontros.
Mas ai daquele que imagina ter conseguido vencê-la.  Ela está ali apenas quietinha obtendo novas cenas, sabores, aromas, sentimentos, carinhos, imagens e locais para emergir tudo de novo numa nova ventura.
Até o dia em que as despedidas deixem de doer.
                                                                                                                                            R.Moret - 31/01/16

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