Voltando de viagem ao sair pela área de desembarque do
aeroporto, vinha caminhando a passos tranquilos e sem pressa, quando fui
vencido por um desejo de sentar-me naquele banco mais distante por alguns
momentos, e ali fui tomado por um grande
vazio no peito. Sem dificuldade, tive a certeza de que havia sido vencido pela
saudade, sem conseguir conter o marejar dos olhos e buscando uma forma de não
me fazer notar.
A saudade é um sentimento
daqueles esquisitos, porque fica imersa dentro do coração e vêm à tona a todo momento para nos
recordar que ela existe e está ali se fazendo lembrar.
E quando ascende à nossa mente, vêm
sempre carregada dos mais diversos sentimentos, emoções, imagens, gestos e
recordações, e tem o poder de nos fazer parar tudo o que estamos fazendo e
arrancar um suspiro, um sorriso e às vezes até
uma lágrima.
Aí submerge novamente.
Por vezes, traz consigo apenas um
sorriso com os olhos fechados, que quem vê logo percebe: "- ah, se lembrou
de alguma coisa boa..."
O mais interessante é que mesmo
guardada lá no canto mais profundo de nosso coração, ela permanece alerta,
pronta para atacar novamente:
Passe os olhos em uma foto no
smartphone de um lugar em que estiveram;
Cruze na rua com uma pessoa
usando aquele mesmo perfume. Sinta o aroma daquele prato favorito trazido pela
mesma brisa daquele parque onde sentaram juntos; ou abra a gaveta e encontre
bem ali à frente aquele presente recebido. Não adianta fechá-la rapidamente,
pois seus olhos vão se desviar para a estante, justamente naquele livro que
você ganhou no primeiro encontro.
Ardilosa!
E às vezes sorrateira, ela nos
provoca, mandando músicas que nos fazem imediatamente lembrar-se da pessoa
amada ou local em que estiveram juntos. Adianto que como numa provocação para a
guerra, aquela música começa a surgir em comerciais de TV, como trilha sonora
daquele filme antigo que a emissora resolve reapresentar na sessão da madrugada
e no anúncio da rádio daquele curso que você nunca se interessou.
E lá vem de novo! Aquele turbilhão de pensamentos que você
precisa, deve disfarçar, conter-se, resistir à todo custo mas... fecha os olhos e... sorri. (Não
conseguiu segurar de novo).
Pacientemente, ela nos faz contar
dia-a-dia o espaço de tempo para o reencontro onde finalmente ela será, enfim, derrotada.
Cada um à sua maneira, seja na
mente, seja num quadro com a contagem regressiva riscada todo final de jornada,
seja simplesmente olhando na agenda que vai se diminuindo o número de folhas
até chegar o grande dia.
Felizmente a tal saudade, por sua
própria provocação, acaba sendo derrotada através de um sem número de ligações,
mensagens e reencontros.
Mas ai daquele que imagina ter
conseguido vencê-la. Ela está ali apenas
quietinha obtendo novas cenas, sabores, aromas, sentimentos, carinhos, imagens
e locais para emergir tudo de novo numa nova ventura.
Até o dia em que as despedidas
deixem de doer.
R.Moret - 31/01/16


